segunda-feira, 28 de junho de 2010

Paz e diálogo em um mundo de conflitos


As práticas educativas que visam à construção da paz devem ter, na infância e na juventude, o seu principal foco de atuação. A abertura de espaços de diálogo, de expressão, de reconhecimento de sua identidade e de solução pacífica de conflitos adquire, nesse sentido, um caráter de urgência...

"Somente a pura violência é muda".
(Hannah Arendt)

Sabe-se que a juventude brasileira, imersa num sistema social fortemente marcado por uma cultura de violência é, ao mesmo tempo, a maior vítima e algoz de atos violentos. Por causa disso, as práticas educativas que visam à construção da paz devem ter, nessa juventude, o seu principal foco de atuação. A abertura de espaços de diálogo, de expressão, de reconhecimento de sua identidade e de solução pacífica de conflitos adquire, nesse sentido, um caráter de urgência...
1. A resolução não-violenta de conflitos
Vivemos numa sociedade que espera que de um conflito saia sempre um ganhador e um perdedor, onde a meta é vencer sempre o adversário, custe o que custar. É o esquema vitória-derrota ou ganha-perde, característica da ideologia da “competitividade” neoliberal. Temos uma inclinação muito forte a encobrir os conflitos ou passar por cima deles. A imagem do “bom” educador é daquele que protege seus filhos das dificuldades do conflito. Por isso tornou-se um costume não encarar os conflitos, deixando assim as pessoas totalmente despreparadas para lidarem com eles.
A resolução não-violenta de conflitos contrapõe-se, em primeiro lugar, à fuga do conflito. Também se distingue de resoluções mediadas por todas as formas de violência, como a guerra, sanções unilaterais, etc. - numa nítida distinção, muitas vezes não traduzida no senso comum, entre violência e conflito. A característica fundamental deste processo é a participação das partes envolvidas, como sujeitos competentes, mediante o uso da ação comunicativa, embora possa ser feita de forma direta ou indireta.
Portanto, a resolução não-violenta não é encobrir ou fugir do conflito. Não é buscar a resignação ou a submissão de uma das partes. Não é sequer a renúncia dos verdadeiros sentimentos, opiniões ou emoções. É diferente da arbitragem de conflitos a qual emprega a autoridade ou o poder para impor uma solução de cima para baixo ou para manter a situação atual. O que nem sempre resolve os conflitos. Pelo contrário, a resolução não-violenta do conflito busca uma compreensão e uma aplicação correta da democracia, que estimula a responsabilidade social e a resposta criativa à mudança.
O objetivo da resolução não-violenta de conflitos é ajudar para que as pessoas deixem de ser peças de um conflito para serem sujeitos ativos na solução do mesmo. O que se busca com a resolução não-violenta é o resgate de cada pessoa envolvida, como alguém capaz de fazer acordos, estabelecer pontes, enfim, compreender. A meta, pois, é construir uma saída para o conflito onde as partes envolvidas sejam beneficiadas, chegando a um resultado chamado de “vitória-vitória” ou “ganha-ganha”.
Desse modo o conflito deixa de ser encarado como o oposto da paz para ser visto como um dos modos de promovê-la através dos benefícios que o próprio conflito pode gerar. Entre os benefícios do conflito, citamos o estímulo do pensamento crítico e criativo, uma melhor capacidade de tomar decisões, a busca por diferentes formas de encarar problemas e situações, melhora nos relacionamentos e na apreciação das diferenças, além de promover a autoconhecimento.
2. Importância da tolerância na resolução de conflitos
A paz, no espírito e no coração das pessoas, pressupõe a capacidade de aceitar a diversidade, isto é, a tolerância uma vez que a intolerância origina-se da crença de que seu próprio modo de vida é superior ao dos outros. A intolerância é um sintoma que pode acarretar uma perigosa doença social: a violência. A violência é uma patologia que requer a mobilização de todos os esforços possíveis para proteger a saúde e o bem-estar da sociedade em geral e de daqueles que mais a sofrem, como é o caso dos jovens brasileiros.
A atual cultura de violência baseia-se em desconfiança, intolerância e ódio; na incapacidade de interagir construtivamente com todos aqueles que são diferentes. Para fazer frente a isso, é preciso desenvolver uma cultura da paz baseada na não-violência, na tolerância, na compreensão mútua, na solidariedade e na capacidade de resolver conflitos de modo pacífico e no diálogo.
3. Peça chave: o diálogo
A violência, em muitos dos casos, geralmente está associada à in-comunicação, ao não reconhecimento do outro diferente como sujeito digno de reconhecimento. Por isso, segundo Jean-Marie Muller, “muitas vezes a violência dos oprimidos é mais um meio d expressão do que um meio de ação. Não é tanto a procura de uma eficácia como a reivindicação de uma identidade. Ela é o meio de se fazer reconhecer para aqueles cuja existência permanece não só desconhecida, como não reconhecida. A violência é então o meio de se revoltar contra esse não-reconhecimento. É o último meio de expressão daqueles que a sociedade privou de todos os meios de expressão. Uma vez que não tiveram a possibilidade de se comunicar por meio da palavra, tentaram exprimir-se por meio da violência. Esta substitui a palavra que lhes é recusada. A violência quer ser uma linguagem e exprime, em primeiro lugar, um sofrimento; é então um sinal de angústia que deve ser decifrado como tal pelos outros membros da sociedade” (MULLER, 1995, p. 34).
Portanto, educar para a paz é antes, de tudo, desenvolver nas pessoas a sua competência comunicativa; quer dizer, ajudá-las a recuperarem a capacidade que elas têm de falar e agir e de, através do diálogo, superar obstáculos e estabelecer pontes, revelando-se assim, cada vez mais, sujeitos. Nesse sentido, Lévinas afirma que “a linguagem é o ato do homem racional que renuncia à violência para entrar em relação ao outro” (LÉVINAS, 1990, p. 21). Quer dizer que o exercício do diálogo é o próprio acontecer da paz.
Sendo assim, o diálogo torna-se a peça-chave da resolução de conflitos.
4. “Novos” caminhos na resolução de conflitos
Infelizmente no contexto brasileiro além da mediação de conflitos, outros instrumentos de resolução de conflitos são ainda pouco conhecidos. Entre aqueles que têm no diálogo a sua principal ferramenta, destacam-se dois: a comunicação não-violenta e os círculos de justiça restaurativa.
A comunicação não-violenta (CNV) se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo em condições adversas. Um dos grandes sistematizadores dessa técnica ou processo é Marshall B. Rosenberg. A comunicação não-violenta é um processo que “nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos expressamos e ouvimos os outros. Nossas palavras, em vez de serem reações repetitivas e automáticas, tornam-se respostas conscientes, firmemente baseadas na consciência do que esta¬mos percebendo, sentindo e desejando. Somos levados a nos expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que da¬mos aos outros uma atenção respeitosa e empática. Em toda troca, acabamos escutando nossas necessidades mais profun¬das e as dos outros. A cnv nos ensina a observarmos cuidado¬samente (e sermos capazes de identificar) os comportamentos e as condições que estão nos afetando. Aprendemos a identifi¬car e a articular claramente o que de fato desejamos em de¬terminada situação. A forma é simples, mas profundamente transformadora” (ROSENBERG, 2006, p. 15).
Resumidamente, o processo da CNV consta de quatro passos: as ações concretas que estamos observando e que afetam nosso bem-estar; como nos sentimos em relação ao que estamos observando; as necessidades, valores, desejos etc. que estão gerando nos-sos sentimentos; as ações concretas que pedimos para enriquecer nossa vida. Ao usarmos este processo, podemos começar expressando ou então recebendo com empatia essas quatro informações dos outros.
A CNV se adapta a várias situações e estilos pessoais e culturais e se aplica de maneira eficaz a todos os níveis de comunicação e a diversas situações: relacionamentos intimos; famílias; escolas; organizações e instituições; terapia e aconselhamento; negociações diplomáticas e comerciais; disputas e conflitos de toda natureza. Hoje, em todo mundo, a CNV serve como recurso valioso para comunidades que enfrentam conflitos violentos ou graves tensões de natureza étnica, religiosa ou política.
Por outro lado, a justiça restaurativa, aplicada mais no âmbito judiciário, está sendo redescoberta no Brasil como uma forma de resolução de conflitos de forma colaborativa. A justiça restaurativa, ao abordar de forma colaborativa o crime e as transgressões à lei, possibilita um referencial paradigmático na humanização e pacificação das relações sociais envolvidas num conflito. Como a violência e a criminalidade estão normalmente associadas a relações conflitivas que evoluem de forma descontrolada, as denominadas práticas restaurativas – soluções de composição informal de conflitos inspiradas nos princípios da justiça restaurativa – têm passado a representar um poderoso instrumento de construção da cultura de paz. Práticas restaurativas proporcionam, àqueles que foram prejudicados por um incidente, a oportunidade de reunir-se para expressar seus sentimentos, descrever como foram afetados e desenvolver um plano para reparar os danos ou evitar que o prejuízo aconteça de novo. Essa abordagem restaurativa, que se auxilia, por sua vez, de técnicas da CNV, ao contrário de processos judiciários meramente punitivos, é reintegradora e permite que o transgressor repare danos e não seja mais visto como tal. No processo, trata-se, efetivamente, de suprir as necessidades emocionais e matérias das vítimas e, ao mesmo tempo, fazer com que o infrator assuma responsabilidade por seus atos, mediante compromissos concretos.
Atualmente, existem no Brasil vários projetos-pilotos de práticas de justiça restaurativa, entre os quais se destaca “Justiça para o Século 21” (www.justica21.org.br).

terça-feira, 15 de junho de 2010



A paz fundada no paradigma do cuidadoLeonardo Boff * Adital

Fatores de violência e de empecilhos à paz são, entre outros, a vontade de poder de um pais sobre outro, o patriarcalismo cultural que ainda marginaliza a mulher e a exploração da natureza em vista do benefício material. O patriarcalismo enfraqueceu a dimensão do feminino que nos faz a todos mais sensíveis, rebaixou a inteligência emocional, nicho do cuidado e da experiência ética e espiritual.
Essa parcialidade, negando a dimensão da anima (o feminino) não deixou de afetar fortemente a ética. O núcleo da moralidade clássica herdada dos gregos e aperfeiçoada por Kant, Habermas e Rorty tem por base inconsciente a experiência do animus (masculino). Por isso ela se funda sobre duas pilastras básicas: na justiça que se expressa nos direitos e nos deveres dos homens (deixando invisíveis as mulheres) e na autonomia do indivíduo, na idéia de que somente um ser livre pode ser um ser ético.


Ora, esta visão é parcial pois deixa de fora dimensões fundamentais, próprias mas não exclusivas do feminino (anima), como as relações afetivas que se dão na família, com os outros, com a natureza e com todos com os quais nos sentimos envolvidos. Sem tais relações a sociedade perde seu rosto humano. Aqui mais que a justiça vigora a categoria maior que é a do cuidado. O cuidado é um paradigma que se opõe ao da dominação. É aquela relação que se preocupa e se responsabiliza pelo outro, que se envolve e se deixa envolver com a vida em suas muitas formas, que mostra solidariedade e compaixão, que cura feridas passadas e previne feridas futuras.

A base empírica é a experiência, tão finamente analisada pelo psicanalista inglês D. Winnicott, de que todos necessitamos de ser cuidados, acolhidos, valorizados e amados e desejamos cuidar, acolher, valorizar e amar. As portadoras privilegiadas, mas não exclusivas, desta experiência são as mulheres. Elas estão ligadas diretamente à vida que precisa de cuidado como na maternidade, na alimentação, no desvelo na enfermidade, no acompanhamento da educação. Estas características são próprias do princípio feminino (anima) que se encontra também no homem e que as realiza a seu jeito.

No transfundo desta ética do cuidado há uma antropologia mais fecunda que aquela tradicional, base da ética dominante: parte do caráter relacional do ser humano. Ele é um ser, fundamentalmente, de afeto, portador de pathos, de capacidade de sentir e de afetar e de ser afetado. Além da razão intelectual (logos) vem dotado da razão emocional, sensível e da razão espiritual. Ele é um ser-com-os-outros e para-os-outros no mundo. Ele não existe isolado em sua esplêndida autonomia, mas vive sempre dentro de redes de relações concretas e se encontra permanentemente conectado. Não precisa de um contrato social para poder viver-junto. Sua natureza consiste em viver comunitariamente.

Sem dúvida, para termos uma cultura da paz duradoura precisamos instituições justas. Mas o funcionamento delas não pode ser formal nem burocrático mas humano, cuidadoso e sensível aos contextos das pessoas e de suas situações. Mais que tudo, devemos nutrir uma cultura generalizada do cuidado para com a Terra, para com as pessoas, especialmente, as mais vulneráveis e nas relações entre os povos para evitar a guerra.

Ao invés do ganha-perde passa a funcionar o ganha-ganha. Com esta estratégia, se diminuem os fatores de tensão e de conflito. Para que se chegue à paz são relevantes as virtudes assumidas conscientemente, como a transparência, a disposição ao diálogo e à escuta, a acolhida calorosa do outro. Isso o presidente Lula o enfatizou ao abordar a questão do Irã sob ameaça da truculência norteamericana e de seus aliados por causa do enriquecimento do urânio para fins pacíficos (pretexto para controlar o petróleo e o gás).

Mas há uma dimensão subjetiva e espiritual que reforça a busca da paz. É a capacidade de perdão e de esquecimento de velhas rixas e conflitos. Hoje que as culturas se encontram, deixam manifestas as tensões históricas que separam os povos. O olhar deve ser dirigido para frente na construção da nova relação fundada numa aliança de cuidado entre todos.

Está dentro das possibilidades de nosso ser, viver esse tipo de humanismo necessário. É a condição da paz duradoura, vista já por Kant como o fundamento da República Mundial.

* Teólogo, filósofo e escritor

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O corpo de Cristo é a comunidade que partilha.


Ainda embalados pelo alegre dinamismo da Páscoa, pelo sopro do Espírito Santo e pela comunhão trinitária, celebramos a solenidade de Corpus Christi. Esta é uma forma de recordar e sublinhar o mistério e o dinamismo fundamental da vida cristã: partilha, comunhão, dom de si, serviço. A solenidade deste dia, reforçada pelo incenso abundante, pelas ricas alfaias, pelas procissões populares e pela beleza das ruas enfeitadas, quer enfatizar que Cristo se faz sacramentalmente presente na comunidade dos irmãos e irmãs que se solidarizam na partilha do pão e no dom da vida, que se reúnem para celebrar em torno da Mesa e da Palavra e que fazem memória da doação maior de Jesus e da pro-existência da nuvem de testemunhas que o seguiram. A Eucaristia não é uma espécie de amuleto a ser adorado e exposto publicamente, mas expressão do amor de Deus por nós, de um amor que chega ao seu ápice quando se torna dinamismo de comunhão e amor ao próximo em nós.
“Bendito seja o Deus altíssimo...”
A solenidade que hoje celebramos foi instituída no ano de 1864, pelo Papa Urbano IV, com o objetivo de sublinhar a presença real de Cristo no sacramento da Eucaristia. Infelizmente, na França dos séculos XV e XVI – mas também em alguns outros lugares em diferentes épocas – esta celebração acabou se tornando uma espécie de provocação pública dos católicos contra os protestantes. Na França, os católicos desfilavam armados e a procissão eucarística frequentemente acabou em confronto violento contra os “inimigos”. Como foi possível chegar a algo tão contrário ao sentido cristão da Eucaristia?!
Ma este é um dia solene e belo, comparável àquele da nossa primeira eucaristia. Nem a exigência de comportar-se exemplarmente, nem a coreografia a ser cumprida minuciosamente, nem a roupa nova e a presença da família e dos parentes conseguiram diminuir o sentido profundo daquela nossa primeira participação na mesa da Eucaristia. “Deus se entregou por mim! Ele vem morar em meu coração purificado pela confissão e disposto a sempre amar e servir... Bendito seja o Deus altíssimo”
Entre tantos testemunhos da emoção sincera que muitos experimentaram na primeira eucaristia, recordo o que ocorreu com João Berthier, cuja primeira Eucaristia teve lugar na festa da Santíssima Trindade, em 1852. Um colega diz que ficou profundamente tocado ao perceber que, ao seu lado, depois de receber a Eucaristia, Berthier chorava. Só mais tarde seu amigo entenderia que aquelas não eram lágrimas de tristeza, mas de amor, de gratidão e de felicidade não traduzíveis em palavras.
“Fazei isto em minha memória.”
A festa de hoje também soleniza a beleza profunda da nossa Eucaristia cotidiana ou dominical. Mais que uma obrigação, participar frequentemente da Eucaristia é uma necessidade e um direito dos/as discípulos/as de Jesus Cristo; uma forma de vencer a sensação e a tentação da fragmentação que nos ronda nas atividades cotidianas; uma oportunidade de acolher a Palavra sempre viva de Jesus Cristo, de confirmar nossa adesão ao seu Testamento e de tecer o fio do vínculo que nos une aos outros.
Mas é preciso ter presente que Jesus, quando ordena a seus discípulos “façam isso em memória de mim”, não está intituindo um rito a ser repetido com reverência mas propondo uma forma de vida a ser assumida com coerência. Como todos os gestos simbólicos que repetimos cotidianamente, a Eucaristia é um sinal sacramental que aponta para algo mais profundo e transcendente: em Jesus, Deus se faz dom por nós para que nossa vida adquira a forma de dom solidário pelo próximo. É assim que somos uma memória viva de Jesus Cristo no mundo.
Diante do dom total de Jesus Cristo pela vida do mundo que celebramos em cada Eucaristia, recolhemos nas mãos o melhor de nós mesmos/as e, como o rei Melquisedec, oferecemos a Deus em favor dos irmãos e irmãs. Em todos os pequenos e grande gestos de partilha Deus vai vencendo as forças que se opõem ao ser humano e vai regenerando o céu e a terra.
“Dai-lhes vós mesmos de comer!”
Voltemos nossa atenção ao Evangelho que nos é proposto neste dia. Pouco antes desta cena, Jesus havia convocado os Doze e lhes havia dado “poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças” (Lc 9,1). Quando o grupo volta desta espécie de estágio missionário, Jesus o leva para descansar fora do território judaico. E os apóstolos contam animados o sucesso que haviam experimentado. Não obstante ser aquele um lugar deserto, as multidões necessitadas vão atrás de Jesus e dos discípulos. Sem se incomodar, Jesus lhes fala do reino de Deus e cura as pessoas doentes.
Mas parece que o repentino e recente sucesso havia subido à cabeça dos apóstolos. A impressão é que eles se sentem uma elite especial e separada do resto do povo, um grupo que ocupa um grau hierárquico superior, um grêmio fechado e dotado de poder e autoridade. No fim do dia, o grupo dos Doze se aproxima de Jesus e simplesmente lhe dá uma ordem: “Despede a multidão para que possam ir aos povoados e sítios vizinhos procurar hospedagem e comida...” Como se a comunidade eclesial e suas lideranças não exististisse exatamente para dar uma resposta efetiva às alegrias e tristezas, angústias e esperanças das pessoas e grupos humanos concretos...
“E todos comeram e se saciaram...”
Jesus reage ordenando sem rodeios ou comentários que são eles os encarregados de cuidar do povo. Jeus não se importa se eles têm ou não provisões suficientes e pede que organizem o povo em comunidades. Depois de se apropriar dos poucos pães e dos peixes dos apóstolos, como um pai de família, Jesus eleva, abençoa, parte e dá aos discípulos para que distribuam. Termina o tempo do “cada um para si” e começa o tempo do convívio, da partilha e do serviço. Inaugura-se o tempo de comunhão.
É possível que aquela multidão de gente necessitada fosse excluída do judaísmo, fosse gente que não merecia nenhuma consideração da parte das autoridades religiosas de Jerusalém. Mas esta gente recebe atenção prioritária da parte de Jesus, e o mesmo deve valer para a Igreja. “Todos comeram e se saciaram.” Depois que estes forem servidos, a sobra – 12 cestos, 12 tribos de Israel – vai para os demais! A atenção dos cristãos é inclusiva e universal, mas dá prioridade aos últimos ou excluídos.
“Isto é o meu corpo entregue por vós...”
Viver a Eucarista é entrar nesta lógica do dom, da prioridade dos últimos e mais frágeis. Não consigo entender uma Eucaristia que exclui, pois me parece que diante deste sacramento não se deve dizer “se aproxime da mesa da Eucaristia quem for digno e estiver preparado”, mas “Senhor, eu não sou digno de participar da tua mesa...” A Eucaristia é um espírito a ser encarnado, e não uma doutrina para recriminar ou um objeto a ser reverenciado.
Santo Tomás de Aquino diz que na Eucaristia temos o “documento do imenso amor de Cristo pela humanidade” e “fazemos memória da altíssima caridade que Cristo demonstrou na sua paixão”. A questão central não é tanto sua presença no pão quanto seu caminho de amor apaixonado e solidário pela humanidade. O ponto central não é propriamente a transubstanciação do pão e do vinho mas a presença real e contínua de Cristo nos nossos gestos de partilha e solidariedade.
“Vos sois o corpo de Cristo e, individualmente, sois membros deste corpo”, diz Paulo (1Cor 12,27). A nossa vocação é nada mais e nada menos que ser o corpo histórico de Cristo no mundo: um corpo feito dom e comunhão; um corpo no qual os membros são iguais, diferentes e reciprocamente solidários; um corpo no qual os membros mais frágeis e considerados menos decentes são tratados com maior honra!
“Até que ele venha...”
Como povo reconciliado, deixamos juntos/as o ambiente cálido e amistoso da mesa da Eucaristia para levar seu dinamismo ao coração da cidade. Depois de participar agradecidos/a da Ceia na qual Jesus sacramentaliza sua vida feita dom, vamos às ruas da cidade para levar a todos os cantos e brechas o “vírus da Eucaristia”, a sede de comunhão, o propósito irrevocável de dar o melhor de nós pelos outros.
Eu não imagino esta caminhada com cânticos como “hóstia branca, no altar consagrada...” ou “queremos Deus, homens ingratos”. Cabem melhor convites e anúncios como este: “Entra na roda com a gente também! Você é muito importante! Vem!” Ou então: “Desempregados, pecadores, desprezados e os marginalizados... Venham todos se ajuntar à nossa marcha para a nova sociedade. Quem nos ama de verdade, pode vir que tem lugar!” Afinal, o corpo de Cristo é a comunidade de irmãos e irmãs.
Pe. Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 31 de maio de 2010

As duas culturas das religiosas


Mau interpretada como "feminismo radical", a fidelidade das religiosas ao Concílio Vaticano II levou à atual investigação das ordens religiosas dos EUA por Roma, "o esforço mais recente e amplo para sufocar um movimento dentro da Igreja que se atreveu a afirmar a liderança das mulheres".

A análise é de Ken Briggs, ex-jornalista especializado em religião do The New York Times e atual colaborador do National Catholic Reporter, 24-05-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
Tom Fox fez-nos um grande serviço ao cobrir vários encontros de religiosas, tanto nos Estados Unidos quanto em todo o globo. Seu editorial desta semana destaca a notável vitalidade e perseverança que têm oferecido à Igreja Católica exemplos de compaixão e sacrifício em prol dos "últimos dentre nós". No meio de uma das horas mais escuras do catolicismo, as religiosas continuam produzindo luz, lembrando as pessoas da Igreja que existe uma dimensão do cristianismo que infelizmente está faltando em relatos da imprensa sobre o escândalo.

As irmãs ilustram a sábia observação do Papa João XXIII no início do Vaticano II de que os Evangelhos pedem o "remédio da misericórdia e não o da severidade". O Concílio foi vento nas velas de seus navios, e elas remodelaram seus ministérios para ir ao encontro das necessidades da modernidade.

O problema foi que elas logo correram para baixo de um teto de vidro. Importantes segmentos do poder clerical masculino ficaram alarmados com o entusiasmo das irmãs por renovação, interpretado como "feminismo radical", e tomaram algumas duras medidas para reverter isso. A atual investigação das ordens religiosas dos EUA por Roma é o esforço mais recente e amplo para sufocar um movimento dentro da Igreja que se atreveu a afirmar a liderança das mulheres.

As religiosas geraram uma cultura teológica que fomentou mutualidade, dignidade, justiça, liberdade, diferentes modelos de oração e de culto e uma perspectiva que sugeriu que a velha ordem da superioridade masculina precisava acabar.

A oposição a elas veio em grande parte daquela velha ordem que sempre combate a mudança, assim como todo "establishment" faz.

O crescimento da unidade e do compromisso das irmãs ao redor do mundo, que Fox descreve – possibilitado pela Internet, dentre outras coisas – é algo a ser celebrado, especialmente porque seus beneficiários são aqueles que sofrem. É uma extensão das obras de bondade que as irmãs têm realizado durante séculos. É o espírito que fundou e manteve as escolas, os hospitais e agências de serviço social católicos para atender as crises de imigrantes e de outras pessoas pobres deste país.

As religiosas impulsionam tudo isso, apesar de terem sido colocados do lado de fora do aparato de tomada de decisões da Igreja, de lhes terem sido negados todos os cargos clericais e de sempre terem estado sujeitas ao veto das autoridades masculinas. Elas merecem um imenso crédito por causa disso.

Crescentemente, aqueles que defendem as humilhações cometidas contra as religiosas citam essa dedicação aos mais necessitados para reforçar seus argumentos contra Roma. É irônico em certo sentido, já que algumas das mesmas pessoas que justificadamente louvam os atos de compaixão das irmãs não se dispuseram tanto a protestar contra o estereótipo das "freiras más".

Na minha experiência, quase todos os nascidos depois da Segunda Guerra Mundial e católicos têm uma história sobre uma freira má guardada na manga. Tornou-se uma lenda urbana, geralmente o tipo de fofoca repassada por pessoas que na verdade não vivenciaram isso por si mesmas, mas que "ouviram" de alguém. Para mim, a principal causa desse triste fenômeno é uma projeção sexista, um extravasamento de insatisfação daqueles que, em geral, não podiam se defender.

E, sem querer defender a maldade, as religiosas que eram assim provavelmente tinham uma boa razão, dadas as vidas restritivas que tinham. Além disso, minha impressão é de que os puxões de orelha e as "reguadas" eram aprovadas pelos pais como uma disciplina apropriada. Caso contrário, por que os pais não deram um fim nisso?

Mas estou divagando.

O outro lado da história que Fox relata, a inspiração que surge da consciência despertada e descoberta, é que tudo isso está ocorrendo dentro dos limites impostos pela cultura antiga. O aumento da liderança parece chegar até aí. As irmãs, sem dúvida, têm suas próprias razões prudentes para evitar protestar contra o sistema que ainda as encerra, mas, com raras exceções, não. Eles optaram por fazer coisas maravilhosas dentro de uma Igreja que oficialmente se recusa até a discutir a ordenação de mulheres ou incluir as mulheres no círculo interno dos conselhos da Igreja, de qualquer forma significativa.

O amor é o evangelista cristão mais poderoso. Perto dele, as estruturas eclesiásticas falam apenas modestamente a seu respeito. No melhor e no pior dos casos, refletem a sórdida condição humana.

Mas as religiosas também existem nesse sistema que, tenho coragem para dizer, lamentavelmente limita a sua liberdade e pode dar um exemplo confuso para os jovens homens e mulheres católicos sobre a natureza da feminilidade católica. Religiosas não pensam ou agem monoliticamente, é claro. Esse é o estereótipo. Muitas, no entanto, fazem seu ministério a partir de uma consciência íntima de uma liberdade que, como diz Jesus, o mundo não pode dar nem tirar. As religiosas manifestam isso em grande medida.

O exercício dessa liberdade no chamado do Evangelho a atender às necessidades do mundo é verdadeiramente exemplar. Mas, em si mesmo, eu não acho que isso constitua o que Fox chama de "estrutura de liderança paralela" em termos de ensinamentos e políticas que guiam a Igreja.

Essa é uma aspiração que levanta um confronto imediato com a ordem estabelecida que rejeita categoricamente qualquer noção dessas por razões que fazem sentido a qualquer pessoa que já viu estilos de liderança conflitantes tentando coexistir. De fato, o Vaticano tem uma boa razão para gostar da forma como as coisas são: a Igreja obtém um crédito merecido pela benevolência das religiosas, os trabalhos concretos de amor que elas sempre ofereceram, sem que sua autoridade masculina seja contestada.

Essa é a razão pela qual pode ser necessário que as já sobrecarregadas religiosas superem os obstáculos enfrentados por cada mulher católica desafiando abertamente aqueles que os perpetuam. O recente encontro de superioras na Itália teve como tema inspirador "mística e profecia", para imaginar a continuação de suas missões de misericórdia e de espiritualidade. A outra dimensão da profecia, de Amós a Isaías, é dizer o "Não" da verdade de Deus aos abusos de poder.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Religiosas: a nova liderança católica


Publicamos aqui o editorial da versão impressa do jornal norte-americano National Catholic Reporter, em sua edição do dia 28 de maio de 2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Humanitas Unisinos

Antes que as mulheres da Leadership Conference of Women Religious sentassem para suas reuniões em agosto passado, em Nova Orleans, elas lotaram ônibus e passaram meio dia visitando suas irmãs locais, que estavam atendendo às necessidades dos desabrigados e necessitados por causa dos furacões e das inundações de 2005. As mulheres vieram para oferecer solidariedade, encorajar e conferir os frutos de mais de 8 milhões de dólares arrecadados por meio de seus esforços para uma série de projetos pastorais locais.

Quando as líderes religiosas de toda a Ásia e a Oceania se reuniram em outubro passado nos arredores de Bangkok, na Tailândia, para se reconectar, compartilhar histórias e levantar a moral umas das outras, elas encontraram tempo durante seu encontro para saber mais sobre as duas investigações do Vaticano de suas irmãs religiosas de todo o mundo nos Estados Unidos. As religiosas da Austrália e da Nova Zelândia tinham a maior parte das informações e compartilharam-nas com as asiáticas. Uma vez informadas, todo o grupo enviou uma breve carta para suas irmãs norte-americanas como sinal de apoio e solidariedade.

No início deste mês, quando cerca de 800 superioras gerais internacionais se reuniram em Roma, elas falaram sobre as formas por meio das quais as congregações mais ricas poderiam ajudar as mais pobres, muitas delas localizadas nas partes mais empobrecidas da África, da Índia e do Paquistão. Mais tarde, as mulheres trabalharam juntas em uma declaração, descrevendo suas intenções de fortalecer a União Internacional de Superioras Gerais (UISG), sob cujos auspícios se encontraram, para mais rapidamente compartilhar os desafios comuns e as necessidades locais.

Em uma sessão, a irmã de de Loretto Pat Murray, da Irlanda, e diretora executiva do projeto Solidarity With Southern Sudan [Solidariedade com o Sul do Sudão], falou sobre como 19 congregações religiosas, incluindo homens e mulheres, nos últimos dois anos, juntaram os recursos para prestar ajuda a um dos lugares mais miseráveis do planeta. O grupo agora treina professores e funcionários da saúde. No processo, elas esperam dar um exemplo que mostra como as pessoas podem superar línguas, nacionalidades e culturas para construir uma sociedade pacífica. No sul do Sudão, devastado pela guerra, a presença desse grupo inter-religioso único oferece exemplo e esperança.

Em outro dia, uma religiosa congolesa combinou os temas da conferência, misticismo e profecia, ao falar sobre o trabalho corajoso das religiosas africanas, mais de 200 das quais foram massacradas pelas milícias locais. Tendo a oportunidade de fugir diante de saqueadores armados, as mulheres repetidamente preferiam ficar com os habitantes locais. Sua fala destacou a imensa coragem de religiosas inspiradas, oferecendo uma nova determinação espiritual para aquelas que a ouviam.

Mais tarde, essa mulher, a irmã de Notre Dame de Namur Liliane Sweko explicou que sua visão da vida consagrada foi moldada em grande parte pelos escritos da irmã do Imaculado Coração de Maria Sandra Schneiders e da irmã beneditina Joan Chittister. Ela disse que só lamenta pelo fato de que todas as obras de Chittister ainda precisem ser traduzidas para o francês, a língua comum de muitas religiosas da África Ocidental e Central.

No entanto, se as religiosas norte-americanas inspiraram Sweko, ela agora estava inspirando-as com suas histórias terrenas de amor desinteressado. E vinda das Filipinas, a Irmã do Cenáculo Judette Gallares estava igualmente inspirando as demais em uma palestra em que ela usou o exemplo de Lídia, uma cristã primitiva convertida, como alguém que ajudou a transformar vidas, recusando-se a viver de acordo com as normas tradicionais que excluíam os dons das mulheres.

* * *

O que foi dito acima são apenas alguns olhares furtivos por trás das cortinas de uma história magnífica e não noticiada da Igreja. É uma história repleta de esperança, ainda muito enterrada sob o episódio agora amplamente noticiado do abuso sexual do clero e do encobrimento episcopal.

O núcleo da história dessa história da Igreja do século XXI é o surgimento da irmandade mundial entre as congregações femininas. É a história das congregações religiosas femininas e de suas líderes que se unem em solidariedade, cruzando linhas nacionais, culturais e linguísticas por uma causa comum. É a história de mulheres que estão cada vez mais conectadas, eletrônica e espiritualmente, impulsionadas pelo convite dos Evangelhos e pelos ensinamentos do Concílio Vaticano II. É a história de religiosas, que, por escolha e necessidade, pararam de competir por vocações e locais de missão e estão, ao contrário, trabalhando juntas, com hábitos tradicionais ou vestes locais, para trazer consolo ao sofrimento do mundo.

É a história de mulheres, marginalizadas dentro de sua própria instituição, ensinando outras mulheres a como superar o preconceito e a viver fora dele. É a história de espíritos autogenerativos que decidiram estabelecer seus próprios trajetos cristãos. É a história de como a educação empodera, e de como os estudos escriturais e teológicos libertaram as mulheres em todo o mundo. É a história de fomentadoras que usam a intuição e o conhecimento para responder à criação de Deus, agora sob um ataque estúpido. É, na verdade, uma velha história estabelecida em um novo século: religiosas que respondem mais uma vez às alegrias e esperanças, tristezas e angústias do povo de Deus.

Essa história não poderia ter alcançado uma forma (nem poderia ser reunida para ser contada) sem a Internet. As missões mais remotas do mundo têm agora páginas de Internet específicas. Algumas das religiosas mais isoladas podem se manter em contato com as suas irmãs em lugares distantes através do e-mail. Ideias e experiências são facilmente compartilhadas on-line ou em encontros. Planos podem ser pensados. Mais de 600.000 religiosas em todo o mundo estão agora conectadas em rede.

O que surgiu, sem intenção e aparentemente pela omissão de um episcopado paralisado, é uma estrutura de liderança paralela dentro da igreja. Essas mulheres de oração refletiram profundamente sobre suas almas e as constituições de suas congregações e, empoderadas umas pelas outras, estão chegando mais longe do que jamais poderiam ter imaginado.

Elas vivem sem ilusão. Elas sabem que não têm lugar oficial na mesa só para homens em torno da qual as decisões são tomadas. Assim, em vez de se sentirem enfraquecidas, elas aprenderam a arte do autoempoderamento. Ricas em determinação, elas prosseguem seus trabalhos, muitas vezes não reconhecidos por aqueles que estão na liderança oficial, que deveriam regar as mulheres com honras.

Em vez disso, é claro, as religiosas norte-americanas enfrentam duas investigações do Vaticano.

A realidade de sua posição dentro da Igreja foi dramatizada no encontro mundial de religiosas deste mês. Como as líderes de todas as 800 congregações religiosas femininas representadas em Roma se reportam canonicamente ao cardeal esloveno Franc Rodé, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, o prelado lhes enviou uma mensagem dizendo que seria "impossível" para ele participar do encontro que ocorre uma vez a cada três anos, que foi realizado a cerca de cinco quilômetros do seu escritório. Na agenda das religiosas para o último dia, um programa que foi planejado há anos, havia uma audiência com o Papa Bento XVI. No entanto, ele a cancelou, tendo decidido visitar Portugal, o que incluía uma visita bem divulgada ao santuário de Nossa Senhora de Fátima.

O que mantém essa situação longe de ser totalmente trágica são as próprias mulheres e sua compreensão cheia de fé sobre a dinâmica bíblica da grande força que emerge dos que não têm poder.

Prestar atenção aos ministérios das religiosas da nossa Igreja é ouvir uma articulação crescentemente mais clara do que significa ser cristão no século XXI. Essas mulheres estão reivindicando suas experiências como chamados sagrados e, ao fazer isso, estão incentivando todos nós a viver as nossas vocações cristãs, independentemente das adversidades que isso possa envolver.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pastoral de eventos e pastoral de processo

Adital - Pe. Alfredo J. Gonçalves *

Está em voga a Pastoral dos Eventos. Estes se multiplicam de tal modo que é difícil encontrar lugar na agenda de não poucas lideranças de movimentos e pastorais sociais. Grandes encontros, seminários, assembléias, romarias vão se sobrepondo umas às outros no decorrer do ano.
Até aqui, nada de anormal. Do ponto de vista pessoal, os eventos são necessários para manter vida a chama do vigor profético e do entusiasmo; do ponto de vista sócio político, servem para dar maior visibilidade, e portanto maior incidência, à forças das organizações populares. Sem esses momentos fortes e significativos, as atividades rotineiras tendem a se diluírem, a se dispersarem e a se perderem e no anonimato e no esquecimento.


O problema se coloca quando tudo se reduz a meros eventos. De evento em evento, chega-se facilmente à pastoral dos espetáculos, dos shows ou do entretenimento. Nesta linha, não é difícil cair na armadilha da mídia, onde a notícia séria e reflexiva dá lugar à manchete sensacionalista. Mais que uma visão crítica, procura-se despertar sensações e emoções momentâneas. Não é raro que esse contexto da "sociedade do espetáculo" (Guy Debord) penetre e contamine as atividades sócio-pastorais com seus estridentes apelos publicitários.

Pior ainda é que a espetacularização da pastoral engendra, com freqüência, dois riscos interligados: primeiramente, um profissionalismo altamente nocivo, onde especialistas de grandes eventos muitas vezes decolam das bases e manifestam enorme dificuldade de aterrizar. Com isso, numerosos eventos são pensados e decididos em laboratório, caindo de cima para baixo e sobrecarregando o calendário das comunidades e movimentos. O resultado é que, enquanto os dirigentes tendem a alçar vôo, o dia-a-dia das lutas sociais se vê atropelado por campanhas, encontros, congressos, e assim por diante. Eventos esses não raro paralelos uns aos outros.

Em segundo lugar, há o risco de determinados movimento ou pastoral se converter em uma espécie de Organização não Governamental (ONG). Neste caso, a tendência é dar maior importância à estrutura da organização do que às reivindicações básicas dos setores mais necessitados da população. Ao invés de voltar-se para os anseios, lutas e sonhos desses setores, na configuração da ONG o que predomina, muitas vezes, é a manutenção efetiva da mesma.

O grande desafio, então, é estabelecer uma conexão fecunda entre a pastoral como um processo de reflexão, conscientização e ação, de um lado, e os eventos extraordinários, de outro. Na contramão dessa integração necessária, os eventos criam às vezes um ambiente tão grandioso e despertam expectativas tão elevadas que seus participantes, ao retornarem às bases, podem sentir-se desiludidos e desencantados. O exemplo da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) pode servir de ilustração. Os agentes pastorais e lideranças, nos grandes encontros de CEBs, recebem um banho festivo e celebrativo de entusiasmo e estímulo. Mas, ao regressar ao dia-a-dia de sua comunidade particular, se deparam com frustrações uma atrás da outra. A discrepância entre evento e processo de organização pode levar ao desânimo, quanto não à elitização de uma minoria "consciente", frente a uma maioria "alienada".

Como diminuir o impacto desse descompasso entre o evento e a pastoral cotidiana? Por uma parte, é importante que as sombras e turbulências da caminhada, e não apenas as luzes, tenham espaço nos eventos. E sejam aí enfrentadas, avaliadas e celebradas na espiritualidade da cruz e ressurreição. A alegria do domingo de Páscoa mergulha suas raízes mais profundas no contraste com o absurdo e a loucura da sexta-feira santa. Na vida de cada pessoa, movimento ou pastoral, dores e esperanças, tristezas e alegrias se mesclam e se confundem.

Por outra parte, é igualmente imprescindível que o entusiasmo festivo dos eventos tenha repercussão no cotidiano árduo e difícil das organizações de base. Aqui também fracassos e vitórias se misturam e remetem ao mistério da morte e ressurreição de Jesus. A alegria dos discípulos de Emaús, (Lc 24, 13-35), por exemplo, após o encontro com o Ressuscitado, fermenta os passos lentos e pesados do processo de organização, mobilização e transformação sócio-política.

Se é verdade que a Páscoa é colheita; e a cruz, semente, podemos afirmar que nos dias atuais não estamos em tempo de colheita. Somos chamados a semear. E a acreditar na maturação da semente no seio úmido e escuro da terra, cientes de que a planta cresce primeiro para baixo, antes de crescer para cima. Busca fortalecer as raízes no terreno turbulento e contraditório da história, antes de buscar o sol, o ar livre e o céu aberto. E principalmente, sabendo que, em geral, os que semeiam não são os que colhem.


* Assessor das Pastorais Sociais.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O presidente Lula recebe prêmio da ONU


O presidente Luiz recebeu hoje (10) prêmio concedido pelo Programa Alimentar Mundial (PMA), vinculado às Nações Unidas (ONU) em reconhecimento ao seu trabalho no combate à fome e à desnutrição infantil.

O título “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome” foi entregue pela diretora Executiva do PMA da ONU, Josette Sheeran, durante a abertura da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, no Palácio do Itamaraty.

Na reunião, ministros e especialistas discutirão as alternativas para promover a segurança alimentar e o desenvolvimento rural, com o objetivo é fortalecer a cooperação entre o Brasil e África.

“Presidente, você deu o produto mais precioso para seu povo: esperança”, disse a representante da ONU em seu discurso. De acordo com Sheeran, 93% das crianças e 83% dos adultos brasileiros passaram a ter três refeições por dia, no governo Lula.