terça-feira, 7 de setembro de 2010

Como se pode crer em Deus se não se crê no outro?


Como é possível "pensar que se pode crer em um Deus que não se vê e não crer nos outros que vemos e graças aos quais crescemos e nos tornamos pessoas adultas?"

Essa é a questão sobre a qual o monge e teólogo italiano Enzo Bianchi reflete neste artigo publicado na revista Jesus, nº 9, de setembro de 2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Segundo o apóstolo Paulo, "nem todos possuem a fé" (2Tess 3, 2), isto é, nem todos acolhem o dom da fé por parte de Deus, porque ela é "virtude teologal", como recitava o catecismo: pode-se, portanto, afirmar também que esse dom não é feito para todos. A fé, de fato, nasce da escuta (Rm 10,17) e, por isso, é preciso que a palavra de Deus chegue ao coração do homem e lhe dê a fé. Mas também é verdade que a fé – justamente porque é acolhida pelo homem, justamente porque é o homem quem crê – também é um ato humano, de liberdade, ao qual podemos ser educados: a fé, na verdade, como ato humaníssimo e vital, significa entrar em relação, iniciar uma relação viva com o outro, é dizer "Amém", aderir, confiar, crer.

A fé, o crer são uma necessidade humana: podemos dizer que não pode haver uma humanização autêntica sem a fé. Como seria possível viver sem confiar em alguém? Diferentemente de muitos animais, de fato, nós saímos incompletos do ventre da nossa mãe, e, para "vir ao mundo", para crescer como pessoas em relação com os outros, devemos pôr a confiança em alguém.

A criança, recém nascida da mãe, logo tem necessidade de sentir que pode pôr a confiança também no seu pai, nos genitores, naqueles que são as suas primeiras referências. É preciso que lhe seja dado o alimento, uma proteção do frio ou do calor, a palavra... e assim ele é educado a crer, porque, descobrindo a gratuidade e a coerência, sente que pode crescer e pode confiar, se dá conta de que existe um sentido. É crendo nos outros que, pouco a pouco, a criança crê também em si mesma: a confiabilidade é possível.

Mais tarde, descobrirá que é capaz de iniciar uma história de amor só se for capaz de crer no outro e de ser, por sua vez, confiável para o outro. Não é significativo que, tempos atrás, aqueles que iniciavam uma história de amor com responsabilidade e confiança se chamavam fidanzati [noivos] e, no momento das núpcias, trocavam-se a "fé"? Durante toda a nossa existência, devemos saber crer nos outros: também nas relações sociais e nas econômicas, devemos confiar, "dar crédito", como diz a linguagem comercial, isto é, crer em alguém.

Sim, há uma humanidade da fé à qual nós, cristãos, infelizmente, não estamos suficientemente atentos: corremos o risco de ser devorados pela ânsia ou pela paixão da fé em Deus e não compreendemos que, sem essa fé humana, não é possível que, em uma pessoa, se enxerte a fé em Deus, senão como declaração teísta, como afirmação de pertencimento cultural e identitário, certamente não como confissão cristã.

Mas justamente essa humanidade da fé nos leva a confessar hoje a crise da fé: crise do ato humano do crer que se tornou tão difícil, raro e, frequentemente, porém, contraditório. Somos poucos dispostos a pôr a confiança nos outros, somos incapazes de "acreditar junto com os outros" em um objetivo, em um projeto que sentimos que é bom. Constatamos isso a cada dia: por que se prefere a convivência ao casamento? Por que se tornou tão difícil uma história perseverante e fiel no amor? Por que a palavra dada no casamento ou na vida comunitária, nas relações amorosas é tão facilmente desmentida?

Será que hoje não conseguimos mais crer e, talvez, principalmente, crer no amor? Porém, o apóstolo João dá esta definição lapidar dos cristãos: "Nós somos aqueles que creem no amor" (1Jo 4, 16). Muitas vezes, ouço reclamações sobre a falta de fé em Deus, sobre a remoção que a nossa sociedade opera com relação a Deus, mas no coração sou tentado por uma reação de intolerância: como é possível se lamentar de que as pessoas não creem mais em Deus quando não creem mais no outro, em que está ao lado, na companhia dos homens e das mulheres? Como pensar que se pode crer em um Deus que não se vê e não crer nos outros que vemos e graças aos quais crescemos e nos tornamos pessoas adultas?

Lendo a Bíblia com sabedoria, captamos sobretudo uma longa educação para a fé, operada pelo próprio Deus, partindo de Abraão até Jesus Cristo. Não por acaso, o livro da Sabedoria nos fala de "Deus educador do homem", Deus que ensina os seres humanos. A Igreja italiana se comprometeu, nos próximos anos, a refletir sobre a educação para a fé: não nos esqueçamos que a busca e o empenho serão fecundos se nos dermos conta de que a fé também tem uma humanidade: isso significa não só crer em Deus, mas também crer no próximo, na Terra, no futuro.

Uma pergunta me parece surgir, então, dessas considerações: quem é crente? Quando alguém crê verdadeiramente? São verdadeiramente não crentes todos aqueles que se dizem ateus? E são verdadeiramente crentes todos aqueles que dizem crer em Deus ou se vangloriam orgulhosamente pelo seu próprio pertencimento cristão?

sábado, 4 de setembro de 2010

A renovação da lista de delitos apresentada pela Congregação da Doutrina da Fé


Ivone Gebara, escritora, filósofa e teóloga, comenta o texto promulgado no dia 30 de abril de 2010 e assinado pelo Cardeal Levada, atual Presidente da Congregação da Doutrina da Fé, em artigo publicado por Adital, 03-09-2010.

Em julho deste ano, Igreja Católica publicou uma revisão do decreto "Sacramentum Sanctitatis Tutela", promulgado em 2001 por João Paulo II. Além de não enfrentar com a energia necessária os graves crimes de pedofilia cometidos por integrantes do clero, o documento ousa colocar a ordenação de mulheres na lista de "crimes mais graves" quanto às questões sacramentais. Católicas pelo Direito a Decidir publica a seguir -e como editorial- o artigo em que a teóloga brasileira Ivone Gebara manifesta seu repúdio a mais essa manobra de encobrimento dos abusos sexuais cometidos por padres e mais esse ataque contra as mulheres, promovido pelo Vaticano.

Eis o artigo.

Em diferentes partes do mundo, grupos de teólogas feministas e, sobretudo, grupos que lutam pela ordenação das mulheres têm se manifestado contra a junção num mesmo documento do delito da pedofilia e do "chamado" delito das mulheres que foram ordenadas ou daquelas que lutam pela ordenação presbiteral. Creio que os canonistas poderiam se defender contra os ataques das feministas em relação a essa lista de novos delitos contra a ortodoxia da Igreja Católica Romana alegando que já em outros documentos eclesiásticos essa condenação existia.

De fato, o que está nessa lista renovada sobre a ordenação das mulheres já estava presente no "Sacramentorum Sanctitatis Tutela", documento promulgado em abril de 2001 sob o Pontificado de João Paulo II, e no Código do Direito Canônico, cânon 1378. Portanto, a condenação não é nova. Da mesma forma, há nos documentos da Igreja penalidades contra os delitos sexuais, incluindo-se a pedofilia. Portanto, nesse particular também não há novidade.

Entretanto, vejo nesse momento a reafirmação pública da condenação da ordenação das mulheres colocada no mesmo texto das penalidades aos pedófilos clérigos, incluindo-se os que detêm patentes clericais uma questão de ordem ética gravíssima. Uma coisa é a transgressão de uma regra canônica em relação à divisão de funções na Igreja (a ordenação sacerdotal é inclusive permitida em outras igrejas cristãs) e outra coisa é o uso de crianças ou de menores como objetos de satisfação sexual. No Documento "Sacramentorum Sanctitatis Tutela" há um elenco de delitos contra todos os sacramentos.

Nessa "Renovação dos Delitos", propõe-se uma reafirmação da lista de delitos, mas esconde na realidade um outro grande delito. Este se refere ao temor de enfrentar a problemática da pedofilia nas instituições da Igreja, aliás uma questão eminentemente masculina. Tornando pública uma condenação contra as mulheres, a atenção em relação "ao clube dos good boys" e suas más ações fica desviada e dividida. Criam-se novas polêmicas e dilui-se o foco do problema.

Creio que, nesse momento, nossa posição como mulheres não deveria ser de defesa do direito à ordenação sacerdotal, mas fundamentalmente a de denunciar e repudiar o uso inapropriado dessa "velha" condenação para ocultar os velhos e atuais crimes da instituição. Esses crimes são em parte legitimados pela manutenção de uma leitura da tradição cristã que continua sendo hierárquica, dualista, sexista e prepotente. Temos que retomar o FOCO da questão atual: a pedofilia do clero como crime contra a humanidade. É esse grande e grave delito que está sendo julgado e condenado. E é em relação a ele que se exige das comunidades católicas e da sociedade uma tomada de posição clara e vigorosa, já que os hierarcas tentam de diferentes maneiras diminuir ou simplesmente não assumir a gravidade real problema.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Propagandas de ônibus pela ordenação de mulheres já circulam em Londres


Quinze ônibus que circulam pelas ruas do centro de Londres começaram a levar hoje cartazes com a frase "Papa Bento, Ordene Mulheres Já", duas semanas antes que o Pontífice inicie uma visita oficial ao Reino Unido.

A reportagem é da agência Efe, 30-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os cartazes têm um custo de 18.300 euros, patrocinados pelo grupo Ordenação de Mulheres Católicas (CWO), que às vésperas da apresentação das propagandas denunciou que a hierarquia católica quer silenciar qualquer debate sobre essa questão.

Pat Brown, porta-voz do CWO, assegurou que existem sacerdotes católicos que respaldam a iniciativa, que estará representada nos ônibus londrinos durante quatro semanas, mas que não se atrevem a tornar público o seu apoio por medo de uma represália disciplinar.

Brown, católica praticante e ativa em uma paróquia de Leeds (norte da Inglaterra), acrescentou que conhece pessoas que trabalham para a Igreja Católica às quais se exigiu que não façam parte do CWO.

Concretamente, a porta-voz do CWO citou o caso de uma professora de uma escola católica, que há algumas semanas foi ameaçada com a demissão se não se desvinculasse imediatamente dessa campanha pela igualdade das mulheres no seio da Igreja de Roma.

"Proíbem-nos discutir esse assunto em público. Por exemplo, não podemos realizar debates nas dependências das paróquias. É por isso que nos vemos forçados a tomar medidas extremas como essa", manifestou Brown sobre a decisão de publicizar os cartazes.

A ativista destacou que "não se pode proibir que as pessoas falem sobre algo, porque não é a forma britânica de se fazer as coisas".

No começo do ano, o Vaticano declarou a ordenação de mulheres como um dos crimes mais graves na Igreja Católica. Andrew Faley, vice-secretário geral da Conferência Episcopal da Inglaterra e País de Gales, afirmou, com relação a essa campanha, que "a Igreja Católica sempre irá proteger a natureza e a validade do sacramento da santa ordem sacerdotal".

"A tentativa de ordenar uma mulher como diácono, sacerdote ou bispo vai contra o entendimento essencial do ministério no seio da Igreja Católica e das Igrejas do Ocidente", afirmou.

Bento XVI estará no Reino Unido entre os dias 16 e 19 de setembro, na primeira viagem oficial de um Pontífice a esse país e na qual visitará a Inglaterra e a Escócia.

A visita anterior de um Papa a esse país, onde se estima que haja 6 milhões de católicos, foi a de João Paulo II, em 1982, mas nessa ocasião tratou-se de uma viagem pastoral.

domingo, 29 de agosto de 2010

Raimon Panikkar, buscador do Mistério


Faustino Teixeira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), recorda a vida e a obra de Raimon Panikkar, falecido na semana passada. Ele será sepultado no dia 3 de setembro, no Mosteiro de Montserrat, próximo de Barcelona.

Eis o artigo.

Os místicos dizem que a morte mais difícil não é a morte física, essa morte pequena, mas aquela que acontece com o desapego radical e o mergulho na profundidade da alma. A expressão utilizada é “morrer antes de morrer”. Assim aconteceu com Raimon Panikkar, que nos deixou nesse agosto de 2010. Talvez tenha sido um dos Buscadores do Mistério mais ousados e provocadores. Sua vida foi toda tecida pela dinâmica da relação. De mãe católica e pai hindu, traz em sua vida esse traço de dialogação.

Uma vez perguntado sobre o seu itinerário pessoal respondeu que partiu cristão, descobriu-se hindu e retornou budista, sem ter jamais cessado de ser cristão. E anos depois, acrescentou que no seu retorno, descobriu-se um cristão melhor. Esse é Panikkar, referência singular para o diálogo das religiões e a reflexão sobre a espiritualidade. A perspectiva dialogal estava envolvida em sua vida como o musgo na pedra. Não via futuro nas religiões a não ser no intercâmbio criativo entre elas. Dizia que sem a interlocução externa as religiões não poderiam senão afogar-se. Propunha um “diálogo dialógico”, mais existencial, de “fecundação mútua”, que pudesse de fato envolver os parceiros numa busca comum do mistério. O diálogo para ele era, antes de tudo, um ato espiritual, que implicava uma profunda consciência da humildade e vulnerabilidade dos interlocutores diante do Mistério sempre maior e adiante. Mesmo reconhecendo todas as dificuldades que acompanham a abertura e o êxodo para o mundo do outro, acreditava que esse era o caminho seguro para a construção da identidade. Tornava-se necessário conhecer e dialogar com uma outra tradição religiosa para poder situar verdadeiramente a própria tradição. Em frase lapidar, assinalava que “aqueles que não conhecem senão sua própria religião não a conhecem verdadeiramente”.

Na visão de Panikkar, o diálogo interreligioso requer como condição fundamental a atitude de “uma busca profunda, uma convicção de que estamos caminhando sobre um solo sagrado”. Há que se despir de preconceitos para acessar o mundo do outro. E essa viagem não é fácil. Mas há que sair do “esplêndido isolamento”. O encontro com o outro torna-se hoje “inevitável, importante e urgente”. Mas alongar as cordas é sempre muito difícil. Exige um questionamento profundo às nossas convicções e a disposição de deixar-se transformar pelo outro. Como indica Panikkar, é também um encontro “perigoso e desconcertante”, mas certamente purificador. É a condição indispensável para nos darmos conta da profundidade inexaurível da experiência humana e dos limites precisos de nossos vínculos contingenciais e limitados. Para Panikkar, o salto desarmado na realidade é “audacioso e mortal”, e esse foi o exemplo deixado por peregrinos como Buda e Jesus. No horizonte dessa busca o que existe é algo encantadoramente simples, como destaca Mestre Eckhart: algo que é “florescente e verdejante”. Panikkar indica que o verdadeiro buscador deve voltar-se para o que é simples por excelência: o Mistério que nos habita e que também brilha no mundo do outro. Na verdade, o diálogo é uma viagem novidadeira que toca de perto nossa própria peregrinação pessoal, no sentido do encontro com a plenitude de nós mesmos. Há que jogar-se com liberdade nessa água, nos diz Panikkar, ainda que nossas pernas vacilem e nosso coração titubeie. Mesmo sabendo que há o risco de nele nos perdermos e afogar, é o caminho essencial para tocar o fundo.

No último período de sua jornada, Panikkar dedicou-se ao tema da mística e da espiritualidade. Para ele, a mística vem entendida como a “experiência integral da vida” ou “experiência da Realidade última”. E a categoria Realidade assumia para ele uma importância única, de densidade mais ecumênica para expressar o significado profundo da experiência do Mistério sempre maior. Enquanto a mística traduz para ele essa “experiência suprema da realidade”, a espiritualidade vem entendida como o caminho para alcançar essa experiência. É ela que faculta o essencial fermento para a qualidade da vida e para o encontro autêntico com o outro.

Em bela iniciativa da editora italiana Jaca Book, toda a obra de Panikkar está sendo recolhida e organizada e vários volumes, divididos por temas, entre os quais: mística e espiritualidade, religião e religiões, cristianismo, hinduísmo, budismo, cultura e religiões em diálogo, hinduísmo e cristianismo, visão trinitária e cosmoteândrica, mistério e hermenêutica, filosofia e teologia, secularidade sagrada, espaço tempo e ciência (Opera Omnia).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Direitos humanos e diplomacia nuclear devem andar juntos



O angustiante caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, mãe de dois filhos que um tribunal iraniano sentenciou à morte por apedrejamento em um caso de adultério, atraiu merecida atenção mundial ao draconiano código penal do Irã, que reserva suas mais cruéis punições às mulheres.
A prática do apedrejamento, especialmente, é tão repulsiva que até mesmo aliados políticos como o Brasil se sentiram compelidos a agir. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu asilo a Ashtiani, no final de semana, por meio de um apelo direto ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. A intervenção brasileira envia uma mensagem poderosa à república islâmica: seu histórico de direitos humanos não poderá ser separado de sua diplomacia nuclear.
Antes da Revolução Islâmica de 1979, nos anos em que eu trabalhava como juíza no Irã, relações sexuais consensuais entre adultos não constavam do código penal.
A revolução impôs uma versão da lei islâmica extraordinariamente rigorosa até mesmo pelos padrões dos países muçulmanos, tornando o sexo extraconjugal crime passível de punição legal. Sob o código penal revolucionário, a punição para homem ou mulher solteiros que pratiquem sexo extraconjugal passou a ser de cem chibatadas; e o artigo 86 dispõe que uma pessoa casada culpada de adultério seja morta por apedrejamento.
Como a lei iraniana permite a poligamia, na prática dá aos homens uma rota de fuga: podem alegar que sua relação adúltera constituía um casamento temporário. Mas as mulheres casadas acusadas de adultério não têm direito a essa exceção.
Os códigos leais do Irã estão repletos de incoerências e indefinições que tornam impossível respeitar os princípios do direito. O processo criminal por adultério e a promulgação da sentença de morte por apedrejamento não requerem nem mesmo um queixoso pessoal; se for possível provar que um homem ou mulher cometeu adultério, mesmo que o cônjuge o perdoe, o transgressor deve ser executado por apedrejamento. O artigo 105 permite que um juiz sentencie uma adúltera com base apenas na queixa de seu marido.

BOCA A BOCA
O apedrejamento vem sendo criticado por diversos juristas islâmicos, sobretudo pelo aiatolá Yousef Saanei. Acreditam que uma punição dessa ordem era aplicada nos dias iniciais do advento do islamismo, no século 7, segundo os costumes então vigentes. Apontam que o Corão não menciona apedrejamento e acreditam que punições mais amenas, como multas ou prisão, podem ser consideradas.
Para evitar os protestos internacionais, o governo se abstém de anunciar publicamente os veredictos de execução por apedrejamento. É só por meio de informações passadas de boca em boca por familiares e advogados que os casos chegam ao conhecimento da mídia. Por isso, nem mesmo sabemos exatamente quantos iranianos receberam essa punição nas três últimas décadas.

SHIRIN EBADI é ativista de direitos humanos e foi a primeira mulher muçulmana a receber o Nobel da Paz.
Leia a íntegra em
www.folha.com. br/mu777927

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Onde Estava Deus? Por Que Existe O Mal?


Adital - Antônio Mesquita Galvão *

Onde Estava Deus?
Por Que Existe O Mal?
Onde Estava Deus?


Em minha tese de doutorado em Teologia Moral, a respeito da misteriosa existência do mal ("Deus é bom. Então por que existe o mal?"), deparei-me com essa questão, indagando onde estaria o Criador quando atrocidades e acidentes da natureza ocorriam. Primeiro foi no "terremoto de Lisboa" (retratado no "Cândido", de Voltaire), depois nas tragédias de Auschwitz, onde milhões de judeus foram eliminados.

A filósofa Susan Neiman detecta com maestria que a empreitada da modernidade atinge seu impasse no Holocausto. Em sua obra "O mal no pensamento moderno" (Ed. Difel, 2002), Neiman afirma que se a humanidade perdeu a fé na natureza, em Lisboa, é provável que tenha perdido a fé em si mesma em Auschwitz, que foi conceitualmente devastador porque revelou uma possibilidade que se esperava não ver: seres humanos comportando-se como demônios.


Todas as discussões filosóficas sobre o assunto insistem no ponto de que as condições na Europa apontavam além da barbárie das câmaras de gás, mas para a falência ética da civilização. A questão "Deus onde estás?" parece um clamor desesperado de quem perdeu a fé. Mas não.

Recentemente o papa Bento XVI foi à Polônia e, corajosamente fez questão de visitar Auschwitz. Nessa visita, chocado com o que ali ocorreu, ele fez um desabado: "Onde estava Deus que permitiu tudo isto?". O local é tão tétrico que os visitantes chegam a sentir o cheiro de coisa queimada, mais de sessenta anos após o fechamento dos fornos crematórios. As reações da comunidade internacional mostram que o episódio não foi superado e que as feridas ainda estão abertas. Em termos de ética e valores a última palavra sobre o holocausto ainda não foi dita.

Sintomaticamente, alguns segmentos da mídia e dos grupos de ateus e de certas sociedades secretas atribuíram à fala de Ratzinger um vacilo na fé, pois um papa não poderia - segundo eles - duvidar da presença de Deus. Outros entenderam tratar-se de uma explosão emocionada de um ser humano, idoso, diante do mal, que o homem livre pode cometer. É terrível a liberdade humana. Sartre chegou a afirmar que "o homem é condenado à liberdade". Não se trata, com certeza, de vacilos de fé, mas é como que uma explosão de indignação, incontida diante da manifestação da maldade humana.

O próprio Jesus, na cruz, diante da barbárie cometida por seus inimigos, repetindo um salmo, questionou: "Meu pai, por que me abandonaste?". Seria Jesus um homem sem fé? Ou, na impotência humana diante da violência, questionou os corações que se fecharam a Deus?

Em 1944, num campo de concentração, em represália por algumas fugas, os nazistas enforcaram um menino judeu de oito anos. Enquanto a criança se debatia nos esgares da morte, alguém perguntou: "Onde está Deus?". Alguém que assistia aquela cruel execução apontou para a vítima e falou: "Está ali, pendurado naquela corda!". O fato inconteste da presença de Deus indica que mesmo naqueles momentos de aparente fracasso, quando parece que o mal venceu, a presença de Deus ao lado de quem sofre é uma realidade palpável e inconteste. Mesmo na dor, no silêncio e num improvável abandono, ele nunca de se fazer presente. É preciso enxergá-lo. E buscá-lo.

Mesmo as pessoas que se dedicam ao estudo e à pesquisa da teologia e filosofia, e aí se inclui o homem Joseph Ratzinger, apenas conseguem tatear, tangenciando perifericamente a questão do mal, que é um mistério. Deus não criou o mal, mas respeita a liberdade de quem o pratica. Isto é um mistério que foge à compreensão, mesmo dos especialistas. Já que não podemos penetrar no âmago do mistério, cabe-nos evitá-lo e combatê-lo.


POR QUE EXISTE O MAL?

A maioria das formulações ontológicas, aquelas que se referem diretamente ao ser, apontam o mal como conseqüência da liberdade humana mal conduzida. Tanto é assim que J. P. Sartre († 1980) chega a afirmar que o homem nasce "condenado à liberdade", tamanho o risco que essa virtude desencadeia sobre o comportamento humano. A morte de tantas vítimas que diariamente bordam de sangue os jornais e os noticiários da tevê nos revelam a extensão do drama de uma sociedade colocada à mercê do mal. O móvel dos crimes e suas motivações a gente sabe. Os criminosos assaltam e matam porque têm liberdade para fazê-lo. Não vou entrar no perfil sociológico do delinqüente, para saber se ele é vítima ou não de um modelo social caótico. Vou reportar-me às idéias de Sartre, no fato de qualquer pessoa, inclusive o bandido, agir na contramão da ética, porque é livre para agir assim. É muito primário, num momento desses, perquirir estas razões. Quero ir mais adiante e dividir questões e assertivas com os leitores. Porque o bandido mata, ou assume esse risco ao praticar uma ação danosa, todos nós sabemos. O que foge ao nosso entendimento são os porquês referentes à morte do inocente. Em minha tese de Doutorado em Teologia Moral (apresentada em Paris, em 2005) cujo título é "Deus é bom. Então por que existe o mal?", eu me reporto a esse sofrimento do inocente, a partir da parábola bíblica do pobre Jó, passando pelo terremoto de Lisboa, em 1755, pelos extermínios nos campos do nazismo, culminando com o estupro seguido de morte de uma menina, na periferia de Porto Alegre. Em todos esses eventos, escutou-se o brado das pessoas, clamando "por que, meu Deus?". O clamor que se eleva em cima do sofrimento das vítimas inocentes fica sempre sem resposta. Sabemos que o mal não vem de Deus, que não pertence à sua vontade a ocorrência do sofrimento e das penas. O mal, desde as teorias teodicéias de Santo Agostinho († 430) e de G. W. Leibniz († 1716) é definido como uma "ausência do bem". No decorrer da história do mundo, os atos maléficos e maldosos têm sido atribuídos não a Deus, mas à liberdade humana mal direcionada. Aí entra a questão do "livre arbítrio". No que se refere ao sofrimento do inocente, as causas são mais profundas, e apontam para forças tenebrosas que, pelo duro golpe nas famílias e na sociedade, visam um desequilíbrio e fomentar um sentimento de revolta e descrença capaz de fazer vacilar os mais fortes.

Em minha tese de doutorado, cujo tema foi "Deus é bom. Então porque existe o mal?" eu me debruço sobre este assunto, afirmando que o mal subsiste no mundo por conta da liberdade humana e pela ação das potestades malignas que induzem a esse tipo de comportamento. Deus não evita o mal, mas dá meios de proteção a quem clama por ele.
O fato é que o mal não é criação de Deus. O ser humano também não é o inventor do mal, mas comete o pecado sob a inspiração do mal que se encontra nas estruturas. No mal que existe desde o princípio está a fonte de todo o desajuste.

* Doutor em Teologia Moral